Buscar

O Ensino Outdoor nos recreios escolares - refletir sobre estratégias

Atualizado: Fev 7

Os recreios escolares são uma parte muito importante na infância, é aqui que as relações sociais começam, o grupo de amigos, os jogos, brincadeiras. É aqui que a nossa pequena, mas tão grande, vida social começa e a relação com o mundo se encontra.

Todos nós temos memórias destes recreios, provavelmente as memórias mais marcantes da nossa infância, porque foi aqui que passámos muito tempo das nossas vidas.


Recordo com muito carinho o momento do “bochecho”, nem sei se é uma palavra real, mas foi um momento que me ficou para sempre, todos na rua com um copo com um líquido cor de rosa que aparentemente fazia muito bem aos dentes. Se calhar a minha obsessão com a higiene oral começou aí, nestes momentos que a minha querida professora primária fazia questão de insistir. Se formos refletir, o que temos aqui? Uma memória escolar, com amigos e a professora, divertidos, a aprender sobre a higiene dentária no recreio. É aqui que quero chegar neste webinar, e com a nossa futura formação, criar memórias, brincar, aprender, fazer com que os recreios sejam um prolongamento da sala de aula, igualmente rico, inspirador e cheio de oportunidades.

Provavelmente muitos de vós questionam-se sobre o que fazer, como fazer, como contornar determinadas situações, os pais, entre outras. Sim, é verdade vivemos numa altura, e agora com a pandemia mais do que nunca, em que o medo prevalece. Esse medo surge por falta de segurança, por vivermos momentos atípicos e desconhecidos, que alguma coisa aconteça às crianças, entre tantas outras situações.


São imensas as investigações que nos informam sobre os benefícios do exterior, de estarmos na rua e como este fortalece o nosso sistema imunitário, a nossa capacidade física, que nos ajuda a nível neurológico, social, cognitivo entre outros parâmetros, mas a nossa realidade é que cada vez mais temos crianças em casa, numa vida menos ativa e onde a tecnologia reina.


No entanto, vamos pensar que grande parte do tempo que as crianças passam durante a semana é na escola e é aqui que podemos ser diferentes, que podemos marcar um novo rumo para uma educação que privilegia o exterior e onde a sala de aula não tem paredes. Pensem nos milhares de crianças pelo mundo fora com histórias incríveis que fazem km para aprender, onde os professores se dedicam de corpo e alma a ensinar arte, ciência e literatura em locais onde não existe um lápis de cera, livros ou um instrumento musical. Então agora vamos ver a nossa realidade? Temos tantos recursos disponíveis. Se poderia se melhor? Claro que sim, mas também poderia ser bem pior. O meu maior desejo é chegar ao máximo número de escolas e transformar recreios. Sonho com o dia em que alguma instituição, como uma câmara municipal, me diga, Vera vamos lá melhorar recreios e torná-los um local de brincadeira, aprendizagem e lazer. Iria arrancar imenso cimento e plantar inúmeras árvores.


Os locais com que me tenho cruzado são imensos, recreios onde as crianças brincam com uma tampa de garrafa a fingir que é uma bola, outros mais “modernos” carregados de chão artificial e pouco sensorial, passando por outros que têm um pouco de natureza mas onde nem sempre é permitido ir e outros onde tudo é possível. Em todos eles há estratégias, obviamente umas mais desafiantes que outras, desde ir com caixas com elementos da natureza, outros com jogos, com cordas, com livros, com… acreditem que é possível! Desafiante e pesado mas possível.


Recordo com amor muitas situações, em que ia com um planeamento fantástico, pelo menos para mim, chego à escola e que foi tudo por água a baixo. Porque é que digo que recordo com carinho? Porque foi aqui que cresci, que os conheci um pouco mais e que fui ao encontro do que precisam. Um estratégia, agora no Natal, foi que cada um dos meus alunos criasse um pequeno mimo para a família com cartão, cola e elementos da natureza. O resultado final foi fantástico, mas o desafio foi o processo. Cerca de 80% dos alunos não conseguiram cortar sozinhos uma figura em cartão, antes disso desenhar um sino, por exemplo, numa pedaço de cartão A4 foi qualquer coisa, porque desenhavam tudo pequeno. Parti de um pressuposto que estava errado, que eles iam conseguir. No recreio com um sol de dezembro, aprendemos a desenhar “GRANDE” num pedaço de cartão e aprendemos que cortar cartão é diferente de cortar uma folha branca A4. Foi incrível vê-los crescer mais um bocadinho.


Os pais certo? Esses seres místicos incríveis. Quantas pessoas me perguntam sobre os pais? A minha resposta é RESILIÊNCIA e TEMPO. Uma coisa eu sei, se o nosso tempo com eles tiver um balanço positivo e os pequenos tesouros forem para casa felizes, os pais ficam felizes. Todos os pais, que conheci até à data, adoram que os filhos estejam felizes na escola. Muito amor e paciência. Não nos esqueçamos que existem pais em situações MAIS COMPLICADAS e que para nós (eu) estragar umas leggings ou umas calças no recreio pode não ser nada de mais, mas para eles pode ser um investimento que não estavam à contar. Conversar com eles, levar a que os pequenos partilhem em casa o que fizeram e como se sentiram na escola é um caminho. No dia internacional da bondade, a 13 de novembro, desafiei os alunos do 3º e 4º ano a terem atos de bondade em casa durante o fim de semana, não por obrigação mas como uma forma de dizer obrigada aos pais por tudo o que fazem por eles. Tivemos uma longa partilha de histórias incríveis na semana seguinte, eles estavam radiantes pelos pais terem dito obrigada e gostaram imenso de ajudar. A estratégia aqui foi simples, uma conversa sobre este dia internacional e como é que pequenos gestos podem fazer uma grande diferença.


A escola? A direção da escola? O professor José Pacheco uma vez disse numa formação que a escola são pessoas e não edifícios. Somos todos pessoas, certo? Para uma pessoa que sonha em transformar a educação, ouvir aquela frase foi um (re)despertar. Não tenho a experiência de gerir uma escola, mas tenho a experiência de contatar com pessoas que gerem escolas e de as ajudar. O lado humano é o nosso melhor lado, mas há uma coisa que nós não apreciamos, imposições e mudança. Deve estar escrito algures no nosso DNA, quando algo surge que leve a uma desta situações, internamente soa um alarme qualquer. Uma mudança é ir para o desconhecido e ir para o desconhecido pode ser muito assustador. Nada foi construído da noite para o dia e uma transformação positiva não vai lá com imposições ou obrigações. Por isso: passos pequenos mas muito bem fundamentados, sem “achismos” ou opiniões descabidas. A direcção da escola zela pela qualidade educativa e é por ai que precisamos de ir, demostrar que os recreios são um espaço de lazer, de brincar, de aprender e de aprender a brincar, pequenas alterações que se tornarão num movimento maior.

Há uma coisa que precisamos de saber, aprender lá fora não é levar a sala de aula lá para fora. É outra situação, com outras estratégias, feito de uma outra forma com a mesma qualidade pedagógica. Aqui não há mesas nem cadeiras, mas podem haver livros, giz, bolas, cola, cadernos, cartolinas, pauta de música, legos, experiências laboratoriais e tanta outra coisa. Sabem o que é que muitos dos meus alunos me dizem? Que não gostam de fazer coisas sentados. Gostam de pintar de pé ou deitados no chão, a verdade é que assim têm outra perspectiva do que estão a fazer e exploraram o corpo de uma outra forma. Criança saudável é irrequieta, mexida e agitada. Precisamos de retirar esta tirania do sentar a toda a hora. Ainda há pouco tempo perguntei o que era um bom aluno. Fiquei assustada com as respostas: um bom aluno está sempre quieto, calado e faz tudo o que o professor quer. Dá-nos que pensar certo? Já ouvi isto de crianças com 5 anos como com 9.

Também existe o outro lado, “eles não sabem estar quietos”, não sabem estar calados e onde ir para o recreio é um bónus se se portarem bem. Desculpem mas não é bónus, é uma necessidade. Se existirem mais experiências no exterior a euforia do toque para o intervalo vai ficando diluída. Se mostrarmos que podemos fazer outras coisas, se os levarmos a ouvir e aprender de outra forma teremos novos alunos e novos professores, mas é preciso tempo, é preciso construir um caminho. Quanto tempo perdemos com “estejam quietos”, “calem-se”, “concentra-te” e tantas outras expressões? Se calhar a matemática pode ser lá fora, o conhecimento do mundo pode ser a descoberta dos pequenos seres que habitam o pátio ou podemos, simplesmente, brincar. Brinco imenso com eles, são eles que me pedem, danças do TIKTOK, escorregas de terra ou 1,2,3 macaquinho do chinês.


Precisamos de uma transformação nossa enquanto agentes educativos, precisamos de largar coisas pelo caminho e apanhar outras, precisamos de arriscar, de mudar mesmo cheios de medo de falhar. Não há nada de mal em errar, absolutamente nada. É no errar que mora o aprender.


(texto de apoio ao webinar de dia 4 de fevereiro disponível no link)


15 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Uma perspetiva critica...

Há uns anos traduzi e adaptei o texto em baixo. Retirei-o de um dos meu livros preferidos sobre teorias de aprendizagem. Espero que gostem dele tanto quanto eu. A história da educação e dos cuidados n